sexta-feira, 16 de maio de 2014

Espero teus Cílios

Espero teus cílios mentirem sobre a madrugada,
condensando no brilho insone
o riso das crianças eternas.

Espero teus cílios desvelarem as alvoradas,
borbotões mudos de plenitude e unidade,
canais dos anseios desatados
em desaguar de crepúsculo.

Espero teus cílios, senhores das belas ou duras brevidades,
nas melodias presentes e etéreas
onde habitam tua forma primeira
e minha paisagem perpétua.

Espero teus cílios na sede das pálpebras,
abraço os ritos da divisão
e o teu sorriso me priva
da angústia do finito.

Paira suspenso o saber
de que em nós há um ventre azul
e também
um terço de poros e pranto.

Espero teus cílios,
Aberto.

RF
16/05/2014

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Um Pequeno Poema

Deus fez um pequeno poema quando a gente se conheceu.
Não o mediu em estrofes, mas em metros:
Tantos quantos houvesse
Em uma volta e meia
E uma meia-volta
(Ou assim me pareceu).

Não se ocupou de rigor formal:
quais e quantas sílabas
caberiam nos olhares, afinal?
Quantas regras não havia
ao lhe ver primeiro as costas?
Por onde a métrica corria
entre nossas vontades opostas?

Até hoje, Lhe agradeço
o desapego aos fios narrativos:
meus pés pediam a casa;
seu repouso era um trajeto interrompido
(Só hoje vejo
o humor tecido à ironia
de ter sido semeado o desejo
onde ninguém fez o que queria).

Na fartura de elementos fantásticos,
o escuro dos seus olhos esverdeou o dourado da tarde,
o tímido se vestiu de ávido,
o acaso virou ao avesso, seu engenho desnudo.
E de tudo fez-se um todo cadenciado,
improvável e melodioso,
na releitura prazeroso
e por ela renovado.

Outras coisas queria lhe falar noutros poemas,
porém este me escolheu -
tal qual escolhidos fomos para tema
de um pequeno poema de Deus.

domingo, 23 de março de 2014

Frestas

Tenho procurado a luz por frestas
Um traço na curva da silhueta de Deus,
O feixe na sombra da porta entreaberta,
O prisma roubado que o gigante acendeu.

Tenho buscado o ar por frestas
O casco de um navio parado no chão,
O caco de vidro de improvável janela,
O sim que se extrai espremendo-se o não.

E no entanto sou sentinela
O fôlego firme afia a visão
A brisa me informa, o brilho me espera
Onde tudo são frestas, nada é vão.

Tenho invadido lugares por frestas
Ralo, assoalho, duto, cancela,
Quarto, palácio, aviso de despejo,
O seu desejo, uma caravela.

Tenho dado vazão por frestas
Os raros momentos sem companhia,
O olhar montado em domado sorriso,
O sono, abandono e acolhida do dia.

E no entanto sigo indiviso
Por sobre o rompante eu sou união
Ser quase sereno em chegada e partida
Onde tudo são frestas, nada é vão.

E serei grato às minhas arestas
Em travessias estreitas, origem e destino
Mensageiras perfeitas do aviso ferino
De que todo limite liberta.

RF

(22/03/2014, 02h45 aprox.
23/03/2014, 22h49)

domingo, 19 de janeiro de 2014

Quase Bom

Dor ou alívio é a nascente,
Tudo de dentro é afluente,
Não se é fluente no idioma que é sem voz.

Não há resgate, não há rede,
Contorna muros e paredes,
Tem no silêncio mais sereno um algoz.

E quando chega rente aos olhos e deságua finalmente,
Debate-se e soluça, é sem nota o seu tom.

Depois de tanta luta, quase que por acidente.
É quase bom.

RF
19/01/2014
21h41

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Espelho da ansiedade

O espelho da ansiedade
Refratário da pele, do longe
Do querer o eterno
Sabendo que não cabe
Entre o abrir das pétalas
E o fechar dos olhos

Espalhado no prisma
Decompõe-se nos sonhos
Turva de desejo a íris
E dilata no vazio a Permanência

Acompanha no gesto
A mímica de estar vivo
Quer no outro a expressão de si
Ama sem ensaio
Desenha nos espaços
Meninos e constelações

O espelho da ansiedade
A casa das imagens entre si (férteis)
O pulso a correr o vidro

Veredas simétricas
Em desalinho.

RF
04/11/2013
9h53 AM

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Agosto

E na curva dos dias,
Entre o veludo dos silêncios,
No fôlego e no sal das águas
Que ao respirar abrem sulcos na rotina,

Entre as mãos firmes,
Onde se equilibra o tato do que não se toca,
No vão do breve adeus,
Nas catedrais do corpo, onde (m)ora o êxtase,

Na engenharia sutil dos gritos da vida,

Nas leituras em segredo da alma em voz alta,

De dentro do agridoce do medo
Que deu à luz a escolha da coragem,

Fez-se o espanto, eterno de novo rebento,
Espesso, suave,
Seiva perturbadora dos dias sinuosos
E das sílabas retilíneas e mudas
Que agora traçam pontes entre os olhos
Na paciente colheita dos verbos.

Esta graça perplexa
Em comunhão e à espera
Dos corredores, camas e manhãs
Sobre que nos debruçaremos
Para alcançar
E continuar
No outro.

RF
11/10/2013
01h30 AM