Tenho procurado a luz por frestas
Um traço na curva da silhueta de Deus,
O feixe na sombra da porta entreaberta,
O prisma roubado que o gigante acendeu.
Tenho buscado o ar por frestas
O casco de um navio parado no chão,
O caco de vidro de improvável janela,
O sim que se extrai espremendo-se o não.
E no entanto sou sentinela
O fôlego firme afia a visão
A brisa me informa, o brilho me espera
Onde tudo são frestas, nada é vão.
Tenho invadido lugares por frestas
Ralo, assoalho, duto, cancela,
Quarto, palácio, aviso de despejo,
O seu desejo, uma caravela.
Tenho dado vazão por frestas
Os raros momentos sem companhia,
O olhar montado em domado sorriso,
O sono, abandono e acolhida do dia.
E no entanto sigo indiviso
Por sobre o rompante eu sou união
Ser quase sereno em chegada e partida
Onde tudo são frestas, nada é vão.
E serei grato às minhas arestas
Em travessias estreitas, origem e destino
Mensageiras perfeitas do aviso ferino
De que todo limite liberta.
RF
(22/03/2014, 02h45 aprox.
23/03/2014, 22h49)
domingo, 23 de março de 2014
domingo, 19 de janeiro de 2014
Quase Bom
Dor ou alívio é a nascente,
Tudo de dentro é afluente,
Não se é fluente no idioma que é sem voz.
Não há resgate, não há rede,
Contorna muros e paredes,
Tem no silêncio mais sereno um algoz.
E quando chega rente aos olhos e deságua finalmente,
Debate-se e soluça, é sem nota o seu tom.
Depois de tanta luta, quase que por acidente.
É quase bom.
RF
19/01/2014
21h41
Tudo de dentro é afluente,
Não se é fluente no idioma que é sem voz.
Não há resgate, não há rede,
Contorna muros e paredes,
Tem no silêncio mais sereno um algoz.
E quando chega rente aos olhos e deságua finalmente,
Debate-se e soluça, é sem nota o seu tom.
Depois de tanta luta, quase que por acidente.
É quase bom.
RF
19/01/2014
21h41
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
Espelho da ansiedade
O espelho da ansiedade
Refratário da pele, do longe
Do querer o eterno
Sabendo que não cabe
Entre o abrir das pétalas
E o fechar dos olhos
Espalhado no prisma
Decompõe-se nos sonhos
Turva de desejo a íris
E dilata no vazio a Permanência
Acompanha no gesto
A mímica de estar vivo
Quer no outro a expressão de si
Ama sem ensaio
Desenha nos espaços
Meninos e constelações
O espelho da ansiedade
A casa das imagens entre si (férteis)
O pulso a correr o vidro
Veredas simétricas
Em desalinho.
RF
04/11/2013
9h53 AM
quinta-feira, 31 de outubro de 2013
Agosto
E na curva dos dias,
Entre o veludo dos silêncios,
No fôlego e no sal das águas
Que ao respirar abrem sulcos na rotina,
Entre as mãos firmes,
Onde se equilibra o tato do que não se toca,
No vão do breve adeus,
Nas catedrais do corpo, onde (m)ora o êxtase,
Na engenharia sutil dos gritos da vida,
Nas leituras em segredo da alma em voz alta,
De dentro do agridoce do medo
Que deu à luz a escolha da coragem,
Fez-se o espanto, eterno de novo rebento,
Espesso, suave,
Seiva perturbadora dos dias sinuosos
E das sílabas retilíneas e mudas
Que agora traçam pontes entre os olhos
Na paciente colheita dos verbos.
Esta graça perplexa
Em comunhão e à espera
Dos corredores, camas e manhãs
Sobre que nos debruçaremos
Para alcançar
E continuar
No outro.
RF
11/10/2013
01h30 AM
Entre o veludo dos silêncios,
No fôlego e no sal das águas
Que ao respirar abrem sulcos na rotina,
Entre as mãos firmes,
Onde se equilibra o tato do que não se toca,
No vão do breve adeus,
Nas catedrais do corpo, onde (m)ora o êxtase,
Na engenharia sutil dos gritos da vida,
Nas leituras em segredo da alma em voz alta,
De dentro do agridoce do medo
Que deu à luz a escolha da coragem,
Fez-se o espanto, eterno de novo rebento,
Espesso, suave,
Seiva perturbadora dos dias sinuosos
E das sílabas retilíneas e mudas
Que agora traçam pontes entre os olhos
Na paciente colheita dos verbos.
Esta graça perplexa
Em comunhão e à espera
Dos corredores, camas e manhãs
Sobre que nos debruçaremos
Para alcançar
E continuar
No outro.
RF
11/10/2013
01h30 AM
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
O Homem na Barca
O homem na barca
Possui linhas na pele do pescoço, nariz adunco,
Seu olhar fraqueja mas não resseca frente ao vento.
O cabelo grisalho enverga conforme o avanço,
A fivela do relógio fica para fora
Que é para o tempo correr para dentro
E não escorrer para o mundo.
A camisa listrada azul, a mala preta na mão esquerda.
A coluna de quem não cogita
Tombar senão erguido
Frente ao desconhecido
Dos olhos alheios,
Dos olhos do dia
Que se revolve em borrifo crepuscular
No painel do infinito em círculo.
Senti-me conectado ao homem na barca.
Quis filmar o homem na barca.
Quis dizer ao homem na barca que ele era um elogio às coisas vivas,
Uma lembrança de como nos trançamos
Hélices
Mãos
Motores
Na soberba malha-músculo, tapeçaria pulsante dos seres e dos deuses
A pousar entre o Chão, o Céu e a Dúvida
Em marcha leve por sobre as praças
Na dispersão
De quem existe em claro.
RF
12/09/2013
domingo, 1 de setembro de 2013
Armas Brancas
Armas brancas, paixões brandas
Cor e gesto são controversos.
Rubra ira, guerra fria
Pairam sobre nós, ressentidas
Coisas cruas, incolores,
Que ela abraça, caça, habita
E costura em nós um dano ou valor
Carne é viva nas feridas a pulsar sobre as batidas
Veias, vias crescem fortes sobre as ruas sem saída
Nós em ilhas, isolados,
Desatados por sentidos
Submersos, ostensivos
Que ancoram as armas nesses mesmos velhos nós
Diplomatas tem por fardas línguas bélicas, mas exatas.
No costume infiltrada,
Real arma branca:
A palavra.
RF
2006
Cor e gesto são controversos.
Rubra ira, guerra fria
Pairam sobre nós, ressentidas
Coisas cruas, incolores,
Que ela abraça, caça, habita
E costura em nós um dano ou valor
Carne é viva nas feridas a pulsar sobre as batidas
Veias, vias crescem fortes sobre as ruas sem saída
Nós em ilhas, isolados,
Desatados por sentidos
Submersos, ostensivos
Que ancoram as armas nesses mesmos velhos nós
Diplomatas tem por fardas línguas bélicas, mas exatas.
No costume infiltrada,
Real arma branca:
A palavra.
RF
2006
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