segunda-feira, 25 de março de 2013

Rente aos Olhos

Sentou-se ao meu lado para a prova. Amor antigo, nunca dito. No meio da conversa, olha para a frente, o cabelo suspenso em coque. Estão lá, sob a nuca, os três fios negros, paralelos, começando a contornar o pescoço como um afago trançado na pelagem. Meu riso é contido de satisfação plena. Descobri as coisas que não partem, mas se recolhem, mudas, até murmurarem, perante a Majestade da vida e o Assombro do mundo, a centelha da visita.

RF
Terça, 26/03/2013, 0h26

sábado, 19 de novembro de 2011

Tarântula

Oscila no ventre esta náusea com pernas,
Pata por pata, palavra formada,
Palavra rasgada de proles eternas.
Perfeita rajada.

Homens são rastro, são síladas secas,
Desérticas veias escalam os membros,
Senhroas da sede e das gotas do tempo.
Sangramos em fendas.

Aqui, nossos mapas enredam as teias,
São presas mútuas à mesa da ceia,
O ferro forjado em chama fajuta,
O vento sabota nossa labareda.

Projétil partido, desaparecido,
Sem destinatário, bastardo parido,
Da areia nos lábios insulto cuspido.
A ira dispara.

Jamais se repara, nem deixa poeira,
Perigo que some, mas sempre avança,
A mais sorrateira de todas as danças.
Fraterna tarântula.

Aqui, nossos mapas enredam as teias,
São presas mútuas à mesa da ceia,
O ferro forjado em chama fajuta,
O vento sabota nossa labareda.

RF
Início: aprox. 22/04/2009
Término: de 19/11/2011 para 20/11/2011, 1h16AM

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Uma Letra: "Os Muros"

Não diga a ninguém
E não tente explicar se alguém descobrir
Jamais diga que eu estava ali
Tente não fantasiar, acredite em mim

Não pergunte por quê
Se um dia eu faltar, pois certezas não há
Serão poucas pra mim, para você

Apenas diga aos seus pais que vai dormir,
Apague a luz do quarto após se despedir
E me encontre
Atrás das pálpebras.

Não me peça perdão
Se tiver de partir porque a noite se esconde
Sei que os muros da sua casa ficam longe

A quem se preocupar com a minha ausência,
Apenas responda que tudo que sabe é que eu encontrei meu lugar.

Apenas diga aos seus pais que vai dormir,
Apague a luz do quarto após se despedir
E me encontre
Atrás das pálpebras.

RF
26/12/2009
02h50 AM

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Uma Letra: "Alice Nua"

Alice nua no olhar
Que a lente captura entre as mãos
Qual ave ingênua e vulgar
Cercada por minha intenção

No estalo do tempo nas paredes,
Doce crime que ainda não é meu;
No meu foco, celas enquadradas;
Nelas, Alice, e o seu fim sou eu.

Não é arma o desejo incontido
De um dia completar seus passos,
Mas a assimetria da alma
Escondida em nossos frágeis laços

E nas histórias que conto pra mim
Me traduzo em você.

Minha musa com prosa fecundei
Exalando fuga sob o sol
Das mil tardes secas que criei
A partir de um fôlego só

Sobre ela sou eu meu confidente,
Mas pra ela conto sobre mim.
Nunca sabe, por mais que lhe revele,
Que me traio mas me aproximo assim.

Se nas sílabas sinto o peso
Que treme o corpo e treme a fala,
Cultivarei meu jardim de vozes
Para em coro então chamá-la.

São só dela, portanto, as quinas
Da minha fé tão angulosa,
Erodida, condenada em si
E perfeita porque desgostosa.

E em meus recantos de infância, Alice,
Eu desnudo você.
Rodrigo Fróes
circa 12/06/2007

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Poema-coágulo

Tudo o que guardo de você
Se encerra neste punho
Tendo percorrido o braço esquerdo
Para lhe desaguar os versos
De uma veia que estoura
Como quem chega
À última parada
Da fé.

28/05/2009
14h12

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Uma Parceria: "Confete" (Bernardo Canto & Rodrigo Fróes)

Joga o peso do mundo de um ombro pro outro,
Os tornozelos frágeis abrem o caminho,
O desapego faz o seu figurino
E a sua dança eu quis fotografar.

Gestos breves e expressões tão obtusas,
Sem ter frase, zomba e ri das minhas Musas,
Mas é lisonjeiro o desespero
Que há tempos guardei para você.

Nunca me queira tentar ao me encarar como quem vê um igual.
Neste baile de vaidade travestido em Carnaval,
Jogo confete na sua verve.
Depois reclamo, tirano, da sujeira que terei que limpar.

Sua nudez agride o meu pé descalço,
O desnível faz do palco um cadafalso
De ponta-cabeça quando os aplausos
Rebentam sem saber para quem.

Esta face doce desta minha posse
Ao lhe ver dançando quase se retorce,
Feito um exagero, um medo antigo
De ser eu, ser só meu e mais ninguém.

Nunca me queira tentar ao me encarar como quem vê um igual.
Neste baile de vaidade travestido em Carnaval,
Jogo confete na sua verve.
Depois reclamo, tirano, da sujeira que terei que limpar.

02/01/2010, 01h13 AM

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Poema: Voz

Não há lógica densa que me convença de haver pecado por te desejar
Tampouco tribunais, ou guilhotinas da moral:
És íntimo que não me pesa.

Aquilo de que me privo na distância mas a que me autorizo na proximidade
Talvez jamais conheças
(mas talvez suspeite).
Deixo-o correr solto no anonimato, não me perdôo nunca, pois nunca hei de perdoar o que é meu.
Conjugo a liberdade para ser e a necessidade de se reservar.

Há algo que em mim consentiu e não é cúmplice,
Que tu, eu e os demais não entendemos.
Oscila, raciocina, fraqueja,
É bípede e articulado, defende-se, argumenta, permite-se,
Imobilizou a culpa e a devorou de uma vez,
Com ossos estalando confirmação.
E isso não se julga, não se enxerga,
É e o é de forma insuperável, e nenhum de nós pode-quer-irá delatar.
Pois não há eu autônomo,
                tu convicto,
                eles em maioria,
                maiorias corretas
                que me convençam de haver pecado por te desejar.


(Entre janeiro e março de 2007)